Diagrama mostrando o ciclo do SIBO: diagnóstico, tratamento antibiótico, causa raiz não tratada e recidiva

Muitos pacientes chegam ao consultório depois de meses — às vezes anos — em busca de um nome para o que sentem: estufamento, flatulência excessiva, dor abdominal, alterações do hábito intestinal, cansaço, entre outros sintomas que se arrastam. Fazem exames, teste respiratório, endoscopia, colonoscopia, e quando finalmente chega o diagnóstico de SIBO (supercrescimento bacteriano do intestino delgado), existe um alívio inicial: “agora vou tratar e vou melhorar.” Mas em muitos casos os sintomas voltam meses depois do antibiótico — e é aí que mora o principal ponto que quero explicar neste texto: diagnosticar não é o mesmo que resolver.

O que é SIBO, rapidamente

SIBO é o crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, região que naturalmente tem uma população bacteriana bem menor que o intestino grosso. Esse desequilíbrio fermenta os alimentos de forma inadequada, gera gases em excesso, prejudica a absorção de nutrientes e mantém um estado inflamatório de baixo grau na mucosa intestinal.

Por que só o antibiótico frequentemente não é suficiente

O tratamento convencional mais usado para SIBO é o antibiótico, e ele tem seu papel — reduzir a população bacteriana excessiva de forma relativamente rápida. O problema é quando o antibiótico é usado como solução isolada, sem investigar e corrigir o que permitiu aquele supercrescimento se instalar (motilidade intestinal alterada, hipocloridria, disfunção da válvula ileocecal, alterações estruturais, estresse crônico, uso de medicações que alteram o trânsito, entre outras causas). Estudos mostram que a recorrência de SIBO após tratamento antibiótico é comum, especialmente quando o fator predisponente continua ativo. Uma atualização de prática clínica também recomenda investigar e tratar a causa de base junto ao tratamento antimicrobiano, e não apenas eliminar as bactérias.

O mesmo raciocínio vale, guardadas as particularidades, para o tratamento de H. pylori: eliminar a bactéria sem corrigir o ambiente gástrico e os fatores que favoreceram a infecção pode significar sintomas retornando meses depois, exigindo um novo ciclo de antibiótico — com o agravante do aumento crescente de resistência antimicrobiana documentado na literatura.

O que muda quando se trata a causa

No acompanhamento nutricional funcional, o objetivo não é substituir o diagnóstico médico — pelo contrário, ele é o ponto de partida. A partir dele, o trabalho é entender por que aquele supercrescimento aconteceu e atuar em paralelo em frentes como:

Regulação da motilidade e do “terreno” intestinal, que impede a recidiva depois do tratamento antimicrobiano ou antibiótico.

Ajuste alimentar individualizado (não é sempre a mesma dieta de baixo FODMAP para todo mundo, e ela não deve ser eterna).

Controle do processo inflamatório que se instala com o desequilíbrio bacteriano.

Reposição de nutrientes que costumam ficar deficientes quando a absorção está comprometida (B12, ferro, vitaminas lipossolúveis, entre outros, de acordo com o que os exames mostram).

Isso é o que costuma explicar por que dois pacientes com o mesmo exame positivo para SIBO podem ter evoluções completamente diferentes — um melhora e mantém a melhora, o outro trata, melhora por um tempo e recidiva.

Se os exames vieram normais e os sintomas continuam

Vale registrar também o outro lado, muito comum: pacientes que fazem endoscopia, colonoscopia, teste respiratório, e tudo “vem normal” — mas os sintomas continuam. Isso não significa que não há nada para tratar. Muitas vezes a melhora não depende de um diagnóstico fechado, e sim de uma regulação sistêmica que começa pela saúde digestiva, passa pelo controle inflamatório e pela reposição de nutrientes conforme a necessidade individual.

Se você já investigou, já tratou e os sintomas voltaram — ou se os exames não mostraram nada e você continua sem explicação — agende uma consulta. Vamos além do exame.

Referências científicas

LAURITANO, E. C.; GABRIELLI, M. et al. Small intestinal bacterial overgrowth recurrence after antibiotic therapy. American Journal of Gastroenterology, 2008.

AGA Clinical Practice Update on Small Intestinal Bacterial Overgrowth: Expert Review. Gastroenterology, 2020.

SHAH, S. C.; DAY, L. W.; SOMSOUK, M.; SEWELL, J. L. Meta-analysis: antibiotic therapy for small intestinal bacterial overgrowth. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 2013.

ZOU, D. et al. The effect of antibiotic resistance on Helicobacter pylori eradication efficacy: a systematic review and meta-analysis. Helicobacter, 2020.

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