
Um dos quadros mais frustrantes para quem sofre — e mais desafiadores para quem investiga — é a Síndrome de Ativação de Mastócitos (SAM). Os sintomas aparecem em vários sistemas ao mesmo tempo: pele (coceira, vermelhidão, urticária), digestivo (dor abdominal, diarreia, estufamento), respiratório, cardiovascular (tontura, taquicardia), e neurológico (nevoeiro mental, fadiga). Essa característica multissistêmica é justamente o que torna o caminho até o diagnóstico tão longo, e por isso, quando ele finalmente chega, muitos pacientes esperam que o problema esteja resolvido. Na prática, o diagnóstico é o começo do trabalho, não o fim.
O que são os mastócitos e por que eles reagem em excesso
Mastócitos são células do sistema imune presentes em praticamente todos os tecidos, com grande concentração na pele, pulmões e trato digestivo. Eles liberam substâncias como histamina, triptase e diversas citocinas em resposta a estímulos — e na SAM, essa liberação acontece de forma exagerada e frequente, mesmo diante de gatilhos que normalmente não desencadeariam reação (alimentos, temperatura, estresse, esforço físico, cheiros fortes).
A conexão com o intestino
Uma parte relevante da pesquisa recente sobre SAM aponta para o papel do microbioma intestinal e da disbiose na modulação da atividade mastocitária. O intestino concentra uma parcela expressiva dos mastócitos do corpo, e alterações na composição bacteriana, no equilíbrio da barreira intestinal e no processo inflamatório local parecem influenciar diretamente a frequência e a intensidade das crises. Isso ajuda a explicar por que pacientes com SAM frequentemente relatam sintomas digestivos entre os primeiros e mais persistentes do quadro.
Por que só o diagnóstico não resolve
Receber o diagnóstico de SAM costuma vir acompanhado da prescrição de anti-histamínicos e estabilizadores de mastócitos — medicações importantes para controlar crises, mas que não tratam o que está mantendo os mastócitos hiperreativos. Sem abordar o terreno biológico (saúde intestinal, carga inflamatória, exposições e gatilhos individuais, estado nutricional), é comum o paciente continuar dependente de medicação para controlar sintomas que continuam voltando.
O que entra na avaliação e no acompanhamento
Investigação da saúde digestiva e da presença de disbiose, SIBO ou outras alterações que sustentem a ativação mastocitária.
Identificação de gatilhos alimentares individuais (que não são os mesmos para todos os pacientes, e mudam de intensidade conforme o quadro melhora).
Estratégias para reduzir a carga inflamatória sistêmica.
Reposição de nutrientes que participam da regulação da resposta imune e da degradação da histamina (como cofatores enzimáticos), quando os exames indicam necessidade.
O objetivo não é substituir o tratamento médico, que segue necessário nos períodos de crise, mas construir, ao lado dele, uma estratégia que reduza a frequência e a intensidade das reações ao longo do tempo — em vez de apenas responder a cada crise conforme ela aparece.
Se você já tem o diagnóstico de SAM e sente que está sempre “apagando incêndio” com medicação, ou se desconfia da condição mas ainda não tem um diagnóstico fechado, agende uma consulta. Vamos olhar para o que está por trás das crises.
Referências científicas
HAMILTON, M. J. Mast Cell Activation Syndrome and Gut Dysfunction: Diagnosis and Management. Current Gastroenterology Reports, 2024.
PAPA, V. et al. Mast Cells and Microbiome in Health and Disease. Frontiers in Bioscience-Landmark, 2025.
ZUANI, M. et al. Mast cells at the crossroads of microbiota and IBD. European Journal of Immunology, 2018.